Inimigo invisível, bactéria representa alto risco

Os cavalos que habitam as áreas alagadiças são os mais suscetíveis à ação de um inimigo invisível, porém, perigoso: a bactéria Neorickettsia (Ehrlichia) risticii, causadora de uma síndrome diarreica chamada Erliquiose Monocítica Equina (EME). “Segundo levantamento epidemiológico feito em 2000, na beira da lagoa Mirim, os produtores relataram duas causas pra morte de cavalos: ou velhice ou churrio”, aponta Luiz Filipe Damé Schuch, docente de Doenças Infecciosas na Faculdade de Veterinária da Universidade Federal de Pelotas. O Jornal do Cavalo Crioulo conversou com o professor sobre o assunto. Confira, a seguir:
Em que regiões podemos encontrar ocorrências da EME?
Luiz Filipe Schuch – A distribuição da doença é muito clara nas áreas alagadiças do sul do Brasil, na margem das lagoas, até o Uruguai. Há um caso isolado na Argentina e relatos em pântanos dos Estados Unidos e na Venezuela.
JCC – Há alguma estação do ano que favoreça a infecção?
LFS – No verão, além de os animais terem mais acesso ao pasto perto da água, o ciclo da bactéria é favorecido, pois há mais caramujos e mais trematódeos (parasitas) circulando na água amena. O caramujo é bem pequeno e pode se confundir com a areia: o adulto
tem, no máximo, seis milímetros e está relacionado aos aguapés. Isso facilita aspesquisas, pois há cerca de quatro mil indivíduos por raiz.

JCC – Qual é, em média, a taxa de mortalidade por EME?
LFS – Por rebanho, em média, 5% a 20% por ano. O grau de infecção é bem grande e depende das condições climáticas do lugar e do nível da lagoa.

JCC – Existem outras formas de infecção?
LFS – A bactéria se aloja também em larvas de libélula. Se o cavalo acidentalmente ingeri-las, pode se infectar. Mas isto é raro, assim como é rara a infecçãopor transfusão sanguínea.

JCC – Nos animais que não morrem, quais as consequências?
LFS – Os cavalos podem apresentar laminite (inflamação das lâminas do casco) e, nas fêmeas é comum ocorrer aborto com pouca diarreia não clínica.

JCC – Como é feito o tratamento para a EME?
LFS – O tratamento é feito com tetraciclina, um antibiótico que deve ser
administrado na veia, devido à maior velocidade de ação. Mas o que se deve enfatizar no tratamento é a hidratação, que também diminui a laminite. Em casos extremos, podem ser utilizados até sete litros de soro por dia. É preciso uma observação cuidadosa. Se não há acompanhamento, quando o criador nota, o animal já está muito debilitado.

JCC – Quais são os animais mais sensíveis à bactéria?
LFS – A doença atinge mais, mas não exclusivamente, animais soltos. O cavalo introduzido é muito mais sensível. Há uma ocorrência significativa de gente que parou de criar equinos por
esse motivo.

JCC – Como acontece a infecção?
LFS – É um ciclo oral com vetores de ambiente aquático. A bactéria causadora
da doença habita um parasita que se desenvolve dentro das espécies de caramujos. Quando o cavalo apreende o pasto úmido e ingere o caramujo e o parasita, a bactéria se instala, ocasionando a infecção. É importante ressaltar que existe outro tipo de erliquiose,
de distribuição mundial, transmitida pela bactéria Erlichia equi através de carrapatos, causando babesiose e outras enfermidades. Mas a EME é mais grave e mais significativa na região sul.

JCC – Quais as principais características da doença?
LFS – Conhecida como churrio, é uma doença de alta letalidade caracterizada por diarreia forte e rápida, escura e geralmente sem sangue, capaz de matar por desidratação em um período entre 12 e 24 horas. Em geral, nota-se um quadro de febre no início da infecção.

 

Potra raça Crioula (1)

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